Vela no carnaval de Pernambuco 2010

Banheiros orgânicos de Olinda aprovados / Ladeira da Misericórdia

Há um grito de guerra comum no carnaval carioca que diz que o Rio é melhor que Salvador. Besteira. O carnaval baiano é diferente – tipo, é uma merda mesmo. Se há uma comparação a ser feita é entre Rio e Pernambuco – mais precisamente Olinda.

Este ano finalmente pude conferir ao vivo os frevos e maracatus nas ladeiras de Olinda, uma Santa Teresa elevada à décima potência. É como se fosse um Céu na Terra, a galera toda fantasiada, mas com blocos passando a toda hora, sem o perrengue de não conseguir ouvir o que estão tocando.

O fato é que em 2011 é bem possível que cantarei “Voltei Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço…”

Colombinas, entre elas o Japa, sucesso incondicional em Olinda

Show de fantasias: anjo x diabo / Banheiro ambulante

No mundo dos smurfs / Bloco de pífaros progressivo

A atmosfera das ladeiras de Olinda é completa com cerveja barata – latão de skol a 2 reais e latinha, a 1. Na verdade nem precisava de álcool pra cometer atitudes como essas:

Inspirado em Ali G, peguei o megafone de um padre e mandei o recado: “ALÔ BANDO DE FILHOS DA PUTA!!! VIVA O CARNAVAL DE SALVADOR!!!”. No que fui prontamente vaiado.

Duas garotinhas cantavam animadíssimas o hit de Ivete Sangalo, quando me aproximei e ensinei a versão hardcore: “COMIGO É NA BASE DA PORRADA!!! COMIGO É NA BASE DO HORROR”. No que elas prontamente fizeram cara de cachorro que enfia o rabo entre as pernas.

Dizem que os blocos noturnos de Olinda são caídos. Comprovei isso na sexta à noite, qdo mal começou um – tocando axé! – e a porrada estancou, a ponto dos caras no microfone ameaçaram não sair e perguntar se queriam diversão ou briga. Entre ouvir axé e ver o bloco acabar, não tive dúvida e bradei:  EU QUERO É PORRADA!!! No que os seguranças do bloco prontamente me olharam atravessado.

Freddie Mercury no Recife Antigo / Galo da Madrugada só durou 15 minutos antes da retirada

Momento sublime do carnaval: saí mais cedo de Olinda rumo ao Recife Antigo para conferir o Quanta ladeira, bloco de putaria comandado por Lenine. Além de só falar de maconha e comer o cu do outro, as músicas sacaneiam gente (?) como Michael Jackson (tomou no cu!), Geysi e Zé Roberto Arruda, Dilma, Zé Serra…. Procurem no youtube mais próximo versões da Nação Zumbi como:

PRA COMER O SEU CU / FALTA UMA POLEGADA (Meu maracatu pesa uma tonelada)

UMA CERVEJA, 2 CERVEJAS, 5 CERVEJAS, 20 CERVEJAS / É CACHACEIRA (Praieira)

Mauro Shampoo - jogador do Íbis, cabeleireiro, homem e artista de cinema. Melhor com a tesoura nas mãos do q com a bola nos pés

Vela Celebridade na praia de Carneiros. E essa luz na foto à direita, vem de onde?

VEM DAQUI!!! DO PAI DAS LUZES!!!

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Régis Rösing adivinha o gol do Chico Barney

– Fala Vela amigão! Tava fazendo uma busca com o meu nome no google e caí no blog de um cara chamado Chico Barney com algumas considerações sobre a minha pessoa. Vi que tem um link pro teu blog. Você conhece esse cara?

– Conheço sim, Régis. O Chico Barney te venera!

– Tô vendo…

– Se não me engano ele virou teu fã depois daquela sua entrevista com o Jardel, de quem ele também é super fã.

– É mesmo? Soube que o Jardel foi pro Flamengo do Piauí?

– É verdade. É derrota demais pra alguém jogar no Flamengo. Ainda mais o do Piauí.

– Então, faz o seguinte. Já que tu é amigão do cara, grava aí um vídeo meu mandado um alô pra ele!

Um salve pro @seufelipe pela ajuda na publicação do vídeo!

Vela na naite bombada: fui a Nuth (e gostei!), pagode na Matriz

Ano passado estava saindo com uma moça que no decorrer do ano viraria minha (ex) namorada. Ela apreciava bastante hits de boates. Mas posso dizer que me poupou bastante desse tipo de noitada. Porém, o namorado de sua melhor amiga resolveu comemorar o aniversário na Nuth da Lagoa – tradicional boate da naite bombada carioca. Não havia desculpa para não ir. E ainda seria injusto privá-la de soltar os seus “u-hu´s” na pista.

Na fila para entrar não consegui disfarçar a minha cara de cu. Perto da porta ouvia o som seco da batida. Desespero. Lá dentro, a pista já estava cheia. Imaginei que o lugar fosse maior. O repertório me era familiar: remixies dos anos 80, New Order, Depeche Mode… Mais próximo da cabine, a primeira surpresa: Amândio, DJ da velhíssima guarda que tocava na Basement – primeira e finada boate de roquenrol que eu frequentei! A cara de cu começou a se desfazer.

Juventude dourada carioca marcando presença na Nuth

Juventude dourada carioca marcando presença na Nuth

Subimos. As paredes espelhadas da escada são na medida para a vaidade dominante. O repertório da pista de cima também me surpreendeu. Veio a segunda surpresa: nas carrapetas, Zé Roberto Mahr, outro dos tempos da Basement! Nunca imaginei que fosse ouvir Roberto Carlos e Aretha Franklin na Nuth! Em pouco tempo eu era o cara mais empolgado do grupo. Cheguei a receber olhares meio tortos de um pessoal no balcão quando bradava “Sociedade Alternativa”. A impressão era que a galera boiava com o repertório.

Apesar de estar acompanhado, pude conhecer um pouco do processo de abordagem da Nuth. Um sujeito chegou em uma moça do grupo e logo de cara informou ser morador de uma cobertura da Lagoa. Fiquei imaginando como seria a minha abordagem:

“Oi, tudo bom? Meu nome é Vela. Moro num cubículo no Catete. Quer transar comigo?” (obrigado, @rockbola2009)

Em tempo: o nobre morador da Lagoa não foi feliz em sua empreitada.

Era para ter sido uma noite chata, ruim, mas não. Posso dizer que fui na Nuth e me diverti bastante. Mas voltar lá são outros 500.

Pagode na Matriz

Nojento! Tchan!

Nojento! Tchan!

Casa da Matriz, lugar de festas descoladas. Rock, MPB, música eletrônica. Quem imaginava que um dia uma pista lotada fosse cantar em altos brados os pagodes que marcaram os anos 90?  Pois isso aconteceu graças à intervenção de @RonaldRios , @mitsudiz e a graciosa @brunasenos na festa “No Rock Yes Pagode”, no último domingo. Nem quando eu dava canja trash na Matriz tive culhão de tocar Molejo. E os caras simplesmente mandaram umas três ou quatro de Anderson Leonardo e cia. Comovente.

Quanto às músicas românticas, poucos ritmos bateram tão fundo nos corações do Brasil quanto o pagode 90´s. Ousaria compará-los a Vinícius de  Morais. Em alguns momentos eu conferia a reação dos seguranças, se eles cantarolavam alguma coisa. Tive vontade de cantar com eles, mas os distintos mantiveram o respeito.

Mas desvirtuar tanto assim tem seu preço. O repertório não é tão grande e por isso a periodicidade mês sim, mês não seria ideal. Uma festa dessa toda semana ou todo mês enjoaria rápido. Tocar uma hora de rap funciona. Inclusive, Rap do Magalhães foi outro momento antológico.

Quem sabe se um dia eles não tocam na abertura de um show do Molejão?

Eu, V., 33 anos, portador de carteirinha falsa de estudante

No final do ano passado renovei minha carteirinha de estudante. Saí da faculdade faz uma década. Há três anos, quando estudava espanhol, adquiri o pedaço de plástico que me possibilita diversão e cultura pela “metade” do preço. Sugestão de um amigo, também ex-universitário, mas que cursava inglês, e que tomou conhecimento da prática com a ex-namorada, aluna de um cursinho preparatório para concursos.

Peguei o elevador do prédio da Federação dos Estudantes Secundaristas de Niterói, que fica no centro do… Rio! Um sujeito comendo goiaba me atendeu. Na sala acarpetada e sem janela há uma mesa e algumas cadeiras em mau estado. Um jornalzinho da entidade pendurado na parede atualiza as conquistas e reivindicações mais recentes da FESN.

Ser estudante não é necessário!

Não precisa ser estudante!

Fui chamado para outra sala parecida com a primeira, mas com uma janela que dá para a área interna do prédio. No corredor atrás da divisória há uma sala maior de onde se escutam vozes animadas e um rádio tocando flashback. Sentei na cadeira tosca em frente a mesa repleta de formulários xerocados preenchidos por estudantes que adquiriam as suas carteiras.

“Vim renovar, mas esqueci o comprovante do curso?” “Você ainda está nele?” “Sim”. Mentira. Já havia saído do curso. Mas se eu falasse a verdade certamente ouviria um “Não tem problema”. A sensação era a de estar em um lugar clandestino, que a qualquer momento podia ser estourado pela polícia. O sujeito me deu um cartão caso algum amigo quisesse fazer uma carteirinha. Basta pedir por telefone que eles entregam em casa por uma taxa de 10 reais. É o aviãozinho da carteirinha.

Enquanto o sujeito que me atendeu providenciava um novo documento, um outro me ofereceu o mesmo serviço para meus amigos. Sem cartão, ele rasgou um pedaço de papel onde anotou seus dados e me entregou ali, na frente do colega. Livre concorrência é isso aí. Enquanto isso, o sujeito finalizava minha nova carteirinha esticando o plástico com minha antiga carteira em um movimento semelhante ao de enfileirar carreiras de pó.

Notei em um dos formulários sobre a mesa que a carterinha custa 20 reais. Não sei se era a mesma. No entanto, o sujeito me cobrou 30. Não reclamei. Saí de lá o mais rápido possível, constrangido. Mas sabendo que, mesmo fora da lei, vou seguir pagando o preço real pelos ingressos. Não o dobro.

***

Avisos enormes nas bilheterias dos cinemas alertam que o uso da carteirinha só é possível acompanhado de outro documento que comprove o curso. Por um brevíssimo tempo houve essa exigência sim. Mas a prática foi deixada de lado faz tempo.

Época em que a UNE não era a UNENE, União Nacional dos Estudantes e Não-Estudantes

Época em que a UNE não era a UNEN-E, União Nacional dos Estudantes e Não-Estudantes

Em alguns lugares, porém, o uso do documento falso vem se tornando desnecessário. Clientes do Itaú pagam meia em alguns cinemas e no futebol. (Pobres) Assinantes da Claro (que é merda – obrigado, Mike Patton) têm desconto de 50% no Cinemark. Mesmo caso da Vivo nos cinemas do Shopping da Gávea e dos clientes do Unibanco no Arteplex.

Empresas que batizam casas de show também poderiam seguir o caminho em vez de dar descontos mesquinhos variando entre 20% e 30%. A Fundição Progresso, casa de shows do Rio, escancara. Basta levar um quilo de alimento para pagar “metade”do ingresso.

Um projeto do Senado limita a cota de 40% de ingressos para meia-entrada e cria um órgão que fiscalizaria as entidades estudantis. Depois disso, será que o preço da inteira vai cair pela metade? Usando Nelson Ned e Madonna como exemplos, Ricardo Chantilly, diretor da Abeart (Associação Brasileira de Empresários Artísticos), garante que sim.

Isso ajudaria a me livrar da dependência da carteirinha. Mas por enquanto esse argumento é tão sólido quanto um…  chantily!

Leia mais

CE aprova meia-entrada para estudantes e idosos com cota de 40% dos ingressos

Vela na naite bombada: Loud, Bailinho, Bukowski, best of…

Quando fui ao show do Faith No More, no começo de novembro, revi uma galera que me remeteu diretamente pra Loud, melhor festa da década: ex-namoradas, ex-pegas, antigos amigos, criaturas bizarras… E qual foi a minha felicidade ao saber que depois de um longo inverno a Loud voltaria em comemoração aos 10 anos. E na sua casa, o Cine Íris. O alto custo do aluguel do cinema levou a festa para outros lugares, como a Gafieira Estudantina e o Teatro Odisséia, mas ela nunca mais foi a mesma. Hibernou até o último dia 23.

como é que eu não tenho uma foto com essa camisa?

como é que eu não tenho uma foto com essa camisa?

Na porta dava para notar o quanto os antigos frequentadores envelheceram. Alguns engordaram e perderam cabelo, outras precisaram carregar na maquilagem. “Midlife crisis” chegando. O revezamento de DJ´s é interessante porque mesmo chegando cedo é possível curtir um som bacana. Mas as boas-vindas ficaram mesmo por conta de Wander Wildner. A galera ficou no palco mesmo, à banda. O punk brega interagia chamando moçoilas para os backing vocals. Fui paramentado especialmente para o hit que encerrou o show, “Eu tenho uma camiseta escrita eu te amo”. Eu e o Pereio fomos até alvo de fotografias. E teve gente que achou que fosse o Marcelo Camelo. Desde quando MC fala porra?

Na pista do meio o DJ Túlio mandou a aguardada mensagem de Natal: “Papai Noel velho batuta”. Me esgoelei com um maluco que nunca tinha visto. Foi lindo! A pista fervia em todos os sentidos. Em vez ventiladores instalaram perto das janelas telas de LCD fazendo propaganda da própria festa. Pra quê? Restava fugir do calor no terraço, espaço que continua nobilíssimo. Outro senão é o combo de três latas de cerveja, onde o sujeito é obrigado a levar as três de uma vez.

No cinema ainda rolou show do hypado Copacabana Club. Não vi, fica para a próxima. Depois, o espaço esvaziou. Explica-se. DJ Edinho comandava o som. Com uma camisa do Botafogo… Uma ratazana que habita o Cine Íris me contou que vai rolar Loud a cada dois meses. A conferir.

Bailinho

A festa favorita das celebridades começou uma temporada de verão aos domingos no armazém do cais do porto. É impecável em termos de estrutura, produção, som eclético e visual. Mas não é um lugar do caralho porque não tem muita gente legal, nem cerveja barata (R$ 5 a latinha). O ingresso custa R$ 100, mas aceita carteirinhas de estudante verdadeiras e falsas. Fui de graça por acaso. O irmão do amigo de um amigo, produtor da festa, tinha ingressos de sobra naquela noite. Porque pagando R$ 50 eu dificilmente iria.

Rodrigo Pena acertou em largar a carreira de ator sem muito futuro e virar produtor e DJ. Na cabine que mais parece um mini-palco ele está seguro de chatos pedindo música. Mesmo assim é difícil não atender aos gostos mais variados. Vai desde “Rock and roll all night” passando por Martinho da Vila, um hit sertanejo depois de uma bela sequência de funks, LCD Soundsystem, Peter Bjorn e até Mamonas Assassinas, que eu não tocava nem na minha fase mais trash de DJ. Uma foto do Chacrinha decorando a cabine simboliza bem o ecletismo do repertório.

Dado Dolabela no Bailinho. Ele procriou este ano. Porém, para alívio de muitos se afastou da noite

Dado Dolabela no Bailinho. Ele procriou este ano, mas pelo menos se afastou da noite

Iluminação e decoração deixam o imenso galpão bastante acolhedor. Do lado de fora o visual da Baia da Guanabara, ponte e Niterói. O mulherio é de primeira. Mas são daquelas moças que dificilmente darão mole para você leitor, assim como eu, um velho indie com cara de nerd e intelectual. Estão mais à feição dos soft-playboys, uma galera mais tranquila do que os habituais plays. Mas não custa nada tentar. Vai que uma menina do Leblon veja um coração batendo por trás de uma lente de óculos.

Outro mérito da festa foi não ter se abalado com os barracos originados pela senhorita Luana Piovani, que de figura tão fácil na festa já não causa a menor sensação.

Bukowski

O bar de roquenrol de Botafogo é um lugar que evito, mas como última e apelativa opção acaba servindo. A pista é pequena e apertada, o DJ só toca os clichês e a galera que frequenta é estranha. Mistura playboys com losers, losers-playboys, roqueiros… Não entendo o que playboys fazem ali. Aparentemente não sacam nada de roquenrol. Só ajudam a deixar o ambiente com mais homem do que mulher.

Melhores de 2009

Momento sensorial: Maurício Valadares tocando “Body count is in the house” no Ronca Ronca da varanda do MAM, na semana em que o helicóptero da PM foi derrubado. Só faltou rasante do helicóptero.

Melhor combinação festa /lugar – Yellow Submarine no Cine Glória. Depois que o simpático cinema foi interditado pra festas, a Yellow foi para a Pista 3 e quase morreu. Começa o ano no Studio Line, em Botafogo. Boa sorte.

Melhor DJ: Túlio. Pra ficar melhor só precisa tocar em lugares melhores do que a Casa da Matriz às quintas, infestada de macho.

Momento inusit.ado – eu me divertindo na Nuth da Lagoa (fica prum post futuro).

Momento próprio bizarro – eu tendo uma distensão no joelho depois de pular que nem maluco quando tocou “Hava Nagila Hava” na Go East da Casa Rosa.

Melhor boate que toca rock – com uma puta estrutura e som, no Rio não existe. Também se tiver, vai falir porque neguinho do roquenrol é tudo duro.

Melhor show – Faith No More.

Pior peça de teatro – Simplesmente eu. Clarice Lispector

Melhor livro – biografia do Simonal

Um 2010 com muita festa, roquenrol e samba esquema noise!

O dia em que torci contra o Fluminense

Após relatar no post anterior meu drama ao assistir a um jogo do Flamengo entre os urubus, lembrei de outro fato inusitado na minha vida: o dia em que torci contra o Fluminense.

Trabalhava no CFZ, cobrindo o time do Zico (fazer o que? Tenho contas pra pagar…). Os juniores disputavam a Taça OPG, espécie de sub-campeonato estadual inventado para preencher o calendário. O CFZ tinha um time certinho, jogava ofensivamente e na primeira fase foi o primeiro do grupo, deixando o Flamengo em segundo. Passou pelo Madureira nas quartas e nas semifinais pegaria o Fluminense.

E agora? Pra quem eu torceria? Contra o Flamengo foi fácil, CFZ de coração. Mas e naquele momento? Acabou falando mais alto o velho clichê de ser profissional. Além do mais, estava convivendo com aquele grupo e dava gosto vê-los jogar.

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Alojamento da molecada em Xerém. Das poucas coisas boas no badalado Vale das Laranjeiras

Na primeira partida, em casa, o CFZ dominou e teve pelo menos dois pênaltis a favor ignorados pela arbitragem. O apito amigo constrangeu até Renê Simões, então treinador dos profissionais do Flu. Na volta, em Xerém, o temor era que o juiz garfasse o CFZ deliberadamente. Temor até então infundado no tempo normal e na prorrogação, quando os dois times não saíram de um 0 a 0 bastante disputado, mas sem polêmicas. A vaga para a final contra o Botafogo seria decidida nos pênaltis.

Parênteses: cheguei cedo a Xerém junto com o time e para passar o tempo fui conhecer o tão badalado Centro de Treinamento Vale das Laranjeiras. Achei bem fraquinho. O campo principal é duro pra burro, os vestiários toscos e os campos secundários me pareciam largados. Tentei, na encolha, tirar uma foto com Assis, coordenador das divisões de base, mas não havia encontrado o carrasco rubro-negro. Fecha parênteses.

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Xerém é a fábrica e Laranjeiras, a loja. Se bem que ultimamente alguns produtos não chegam nem na loja

Posicionei-me atrás do gol para tirar fotos. Do lado de fora das grades um torcedor do Fluminense gritou para que eu saísse da frente do cinegrafista do clube, que estava mais atrás. Disse que estava ali trabalhando. “Pra quem?”. “Pro CFZ!”. Pra que eu fui dar ideia? O cara passou a me provocar. Comecei a cogitar a bizarra hipótese de entrar na porrada com um tricolor! As provocações passaram para os jogadores do CFZ. “Bate o pênalti que nem o seu patrão!!!”, gritou o maluco, lembrando da Copa de 86.

O goleiro do CFZ havia defendido uma cobrança e se o Flu perdesse a última seria eliminado. O goleiro defendeu de novo, exatamente da mesma maneira que a anterior, mas o bandeirinha alegou que ele havia se adiantado. Protestos e nova cobrança. E de novo outra defesa, do mesmíssimo jeito. E o bandeirinha anulou outra vez! Na terceira tentativa, gol do Flu e a decisão foi para as cobranças alternadas, quando o time da casa levou.

O time azul partiu furioso pra cima do bandeirinha, que tomou alguns sopapos e uma bela voadora. A polícia entrou em campo e isolou a arbitragem. Alguns jogadores do CFZ choravam de tanta raiva. Naquele momento Assis, que eu não tinha visto até aquele momento, adentrou no gramado para tentar acalmar a situação. Já não tinha mais vontade de tirar fotos. No máximo falar algo como “Poxa, ídolo, precisava roubar pra ganhar?”.

O dia em que assisti a um jogo na torcida dos Framengo

Em homenagem ao pentacampeonato rubro-negro, recordo a primeira e (espero) única vez em que assisti a um jogo do menguinho no meio da MAIOR TORCIDA DO “MUNDU”.

upload – Pra quem tá chegando no espaço agora, sou Tricolor de Coração, filho e neto de rubros-negros – o outro avô era América, mas aí não conta. Aquele avô foi, inclusive, corredor pelo Flamengo. Mas graças ao meu relapso pai, meu tio fez a minha cabeça e me tornei um distinto torcedor do Fluminense Football Club – fecha upload.

Outubro de 2007. Ciceroneava uma mexicana pela cidade. Cristo, Pão de Açúcar, praia… Ela quis ir ao Maracanã, mas naquela semana o único jogo era Flamengo x Corinthians, pelo Brasileiro. Sob o comando do papai Joel Santana o menguinho vinha de uma arrancada incrível, da rabeira rumo ao G-4. É bom lembrar que o time tinha jogos atrasados e levava a vantagem ao saber quais resultados precisava. Já o timãozinho lutava desesperadamente contra o rebaixamento, o que se concretizou na última rodada para alegria da nação.

Fomos com a galera do hostel da mexicana em uma van. Hostels e agências de viagem funcionam como “cambistas oficiais”. Eles sempre têm ingressos para jogos cujas entradas se esgotam, como era o caso daquela partida. Os bilhetes geralmente são adquiridos por fora, com pessoas de dentro do Maracanã. Além disso, praticam ilegalmente a venda casada (ingresso + transporte). E vendem bilhetes de meia-entrada como se fossem de inteira. É pegar ou largar.

Sabia onde estava me metendo e tentei sem sucesso passar em casa pra deixar minha câmera. Para a segurança da turistada, chegamos 2 horas antes da bola rolar. Dois flanelinhas quase se estapearam quando a van chegou. O estádio ainda estava vazio e ambulantes tentavam vender camisas falsificadas. A mexicana quis a do Flamengo. Proibi. Já havia explicado para ela o significado daquele clube. Não poderia permitir que ela levasse uma recordação tão ruim do nosso país. O camelô ficou puto, o que me deixou ainda mais orgulhoso da minha boa ação.

A favelada foi chegando e os gritos se intensificando. Só consegui acompanhar o “ão-ão-ão segunda divisão” pros curintiano. Cantava baixinho “Tu és, time de otário e cuzão! Puta, viado e ladrão! Adeus Mengoooo”. Estava numa situação realmente difícil. Apesar de dois times malditos não me restava outra opção senão torcer contra o Flamengo. Esta foto expressa um pouco o meu sentimento.

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Percebi que minha manifestação de carinho havia despertado suspeitas e comentários de pessoas próximas e pouco amistosas. Parei antes de ser desmascarado, até porque a bateria da câmera tinha acabado. O jogo começou e o Curintia marcou. Tive que me conter. O menguinho empatou. Desespero! Veio a virada com uma pancada do Roger Chinelinho. As pessoas começaram a se abraçar e antes que a gentalha encostasse em mim agarrei a mexicana com todas as forças. No final, lamentei um gol incrível perdido pelo curintia. Fim de jogo. Mais emoções estavam por vir.

Na frente do banheiro, um amigo em êxtase passou na minha frente e inacreditavelmente não notou a minha presença. Até hoje ele se lamenta de não ter me visto. Diz que se me notasse teria apontado pra mim e gritado “É tricolor!!!”. Talvez eu não estivesse aqui para contar isso. Que amigo… Uma das gringas (uma européia, acho) tinha perdido as sandálias e pisava descalça numa poça imensa perto do banheiro. Um playboy gritava “Ih, ih, ih, tá pisando no xixi”. Comovente.

Estava são e salvo na van. Um gringo perguntou onde seria a festa de halloween. Era dia das bruxas. Tudo a ver com aquele jogo. A guia criticou o cartaz do MV-Brasil, “Halloween é o cacete, Brasil país cristão”. O rádio tocava Jorge Vercílo.

Confira os melhores momentos do jogo na narração vibrante de Cleber Machado