Tom Zé e os revolucionários do feicebuque

Dos últimos quatro shows do Tom Zé no Circo Voador fui a três – o único que perdi foi justamente aquele em que a mulherada começou a presenteá-lo com calcinhas. No do ano passado, ele parecia sentir os peso dos seus incríveis 76 anos. Eu também sentia o peso daqueles meses em que madrugava às 4 e meia da matina para trabalhar. Quase dormi sentado. Por isso, achei que fosse demorar a assisti-lo novamente. Não fossem os “revolucionários do feicebuque”…

Tom Zé narrou um comercial da Coca-Cola. Foi o que bastou para ser acusado de vendido pela internet. Com pode o mais autêntico dos Tropicalistas se vender desse jeito??? Fico imaginando se os revolucionários do feicebuque vivessem na época em que os Mutantes fizeram um comercial da Shell. Tom Zé, que não é bobo, capitalizou em cima da gritaria e assim surgiu o “Tribunal do Feicebuque”, EP com quatro músicas ironizando o episódio.

Pois então foi anunciado Tom Zé de volta ao Circo. E com a abertura de nada mais, nada menos que Rogério Skylab! Tom Zé mordido e Skylab pela primeira vez na lona tornou-se um evento imperdível. Prontamente passei a convocar os revolucionários do feicebuque na distinta rede social: “Preparem as latinhas de Coca-Cola!”.

tomze

A última vez que havia assistido ao Skylab foi numa quarta-feira de cinzas de uns três carnavais passados, no Teatro Odisseia, também na Lapa, abrindo para o Marcelo Nova. Fui direto de um bloco de carnaval em Santa Teresa, com uma parada estratégica no Nova Capela. De repente estava eu, com uma galinha na cabeça, e uma amiga cheia de purpurina e serpentina, no meio de um monte de roqueiros de preto. Já fui um grande fã do Skylab. Só de shows foram mais de 10. Na ida a um deles comecei um namoro de forma quase trágica (história que fica prum possível post futuro…). Escrevi uma matéria de capa do Caderno B do finado Jornal do Brasil. Por conta de outra matéria sobre o Fluminense, no Globoesporte.com – ele é tricolor fanático e havia marcado um show no dia do primeiro jogo da final da Libertadores, em 2008 – ele foi convidado para assistir àquela fatídica final no camarote do Maracanã. E por conta de um erro meu de edição numa longa entrevista prum blog, fechei as portas para ele em uma casa de shows de Juiz de Fora.

Dias antes do show recebi uma missão: entregar ao Tom Zé o disco de uma banda chamada El Efecto, do irmão de outra ex-namorada. O carro-chefe do disco se chama “O encontro de Lampião com Eike Batista”, bela música de nove minutos gravada há uns dois anos que ganha mais força cada vez que o Eike fica menos rico. Tom Zé tem uma música chamada “O encontro de Raul Seixas com Lampião”. E parece que já havia elogiado os garotos.

A noite parecia mesmo especial para Skylab. A calça e a camiseta básica deram lugar a um blazer, cabelos soltos e óculos escuros. Show curto e enxurrada de seus hits escalafobéticos. Quem só o conhecia por “Matador de passarinho” teve um belo apanhado de seu pitoresco cancioneiro: “Câncer no cu”, “Fátima Bernardes experiência”, “Carrocinha de cachorro quente” e a sua bizarra performance com a cenoura. Além do cover do Jupter Maçã, “Eu e minha ex”, uma das maiores canções de amor da história. Deu para matar a saudade.

“Foi no Circo Voador, Voador, Voador, que eu achei o meu amor, meu amor, meu amor”. É  assim que começam os shows do Tom Zé no Circo. Deve ser um caso raro, talvez único, de artista que tenha uma música exclusiva prum lugar. Tom Zé deu uma pincelada no divertido “Tribunal do Feicebuque”, com referências até do Papa Francisco. Pensei em como entregaria o CD a ele, mas Imaginei que seria complicado lhe dar algo que não fosse uma calcinha durante o show. Dei uma volta e vi a senhora Tom Zé vendendo discos sentada numa mesa. Perguntei seu nome, que havia esquecido, disse para Dona Neuza que ela já havia me colocado para dentro de um show lotado no Oi Futuro e deixei o CD do El Efecto com ela, que soltou uma gargalhada quando li o título da música do Eike. Missão cumprida, voltei para a frente do palco. Foi quando um revolucionário do feicebuque resolveu agir…

O copo de cerveja passou sobre a minha cabeça e explodiu na caixa de som entre o guitarrista e Jarbas, o Sivuca da banda. Alguns acordes depois, Tom Zé parou o show e protagonizou uma cena à la “Fabricando Tom Zé”, quando ele quase cai na porrada com um técnico de som na França.

Por alguns instantes foi difícil voltar a curtir o show. A vontade era de meter a porrada no filho da puta. Mas não demorou para Tom Zé voltar a cantar como se nada tivesse acontecido. Inclusive com suas performances com as calcinhas, que soariam como pornografia de um velho babão. Mas Tom Zé pode. Pode até gravar comercial da Coca-Cola.

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