O dia em que Deus me sacaneou

Tudo começou quando fui batizar meu sobrinho, mês passado. Para tanto, tive que fazer um curso de batismo junto com a madrinha e a mãe, respectivamente minha tia e minha irmã. Seriam duas tardes de sábado recordando os preceitos católicos que eu esqueci e larguei faz tempo. Sim, não sou mais católico. Além disso, critico, implico e faço piada com a religião. Ou seja, não respeito.

Para piorar, a igreja escolhida foi a de São Judas Tadeu, padroeiro do Flamengo. Minha reação natural foi ir para a primeira aulinha com a camisa do carrasco Assis. Enquanto a mulher da paróquia nº 1 falava sobre as peregrinações de Jesus, logo me vinha à cabeça a Vida de Brian. Soube que minha missão como padrinho era levar a criança na igreja. Se dependesse de mim ele continuava pagão.

Depois da primeira aula, tivemos que a assistir à missa para só então nos inscrevermos e assegurar a data do batismo. Após algumas questões, a mulher da paróquia nº 2 me perguntou se eu era católico.

– Tem que ser católico pra ser padrinho? -, retruquei surpreso.

– Claro que sim! Você não é?

– Ele é sim, tá de brincadeira! -, interferiu minha irmã antes que eu botasse tudo a perder.

Fomos orientados a voltar lá durante a semana para garantirmos a data. Voltamos e a mulher da paróquia nº 3, que em muito me lembrava Jabba the Hutt, disse que a inscrição só poderia ser feita no sábado seguinte. Diante da burocracia da fé, minha irmã quase chutou o balde. Finalmente, depois de certa insistência, Jabba aceitou colher nossos dados novamente.

Jabba_the_Hut

O naipe era mais ou menos esse

– Vive com alguém?

– Sim, com Jesus Cristo…

– É católico?

Silêncio dramático e sorriso irônico nos lábios.

– Ele é sim! -, interveio minha irmã novamente.

– Quero ouvir ele dizer! -, decretou Jabba.

– Sim, sou católico -, mantive o sorriso nos lábios.

No sábado seguinte, depois do curso finalizado e me sentindo preparado espiritualmente para o batismo, veio o primeiro castigo. Minha tia disse que, na minha ausência, Jabba comentou que o padrinho não precisava fazer o curso, apenas a mãe e a madrinha. A revolta tomou conta do meu ser e passei a proferir uma série de impropérios e heresias contra aquela senhora e a instituição da qual ela pertencia.

Chegou o dia do batismo. Havia mais quatro ou cinco famílias em busca da pureza para aqueles pequenos seres humanos. Sábado de manhã, sentia sono, estava meio alheio àquilo… Com o moleque batizado, era chegada a parte da cerimônia em que os padrinhos eram chamados na parte da frente, levando velas que eram acesas pelo padre.

vela_fogo

Momentos antes da resposta dos céus

vela_cara

A vela e o Vela

Notei que o pavio da minha vela estava mais forte do que o normal. O que não impediu que meu pensamento voasse para milhas de distância dali. De repente, percebi minha mãe sentada lá no fundo, tentando me avisar alguma coisa. A cera havia pingado no babado da vela que começou a pegar fogo. Atenções todas voltadas para mim. Assoprei uma vez e não apagou. Tentei de novo e consegui. Nunca fiz as pessoas rirem tanto na minha vida. Tive o meu momento Mr Bean involuntário. Não sabia se ria ou se sentia vergonha. Depois da cerimônia, a família e amigos me sacanearam. Meu pai foi certeiro: “Pô, isso foi acontecer logo com o Vela!”.

Ao menos o Lá de Cima me poupou de aparecer nas pegadinhas do Faustão. Na minha família só tiraram fotos. E aparentemente no You Tube não há registro algum do ocorrido.

Ainda dentro da igreja, entendi o recado. “Tá vendo, malandrão? Falou mal de Mim na Minha casa, agora chupa! Ou melhor, assopra!”.

Moral da história: nunca use babado na vela. Além do risco de incêndio, é esteticamente ridículo. Melhor correr o risco de queimar os dedos com a cera.

Anúncios

12 ideias sobre “O dia em que Deus me sacaneou

  1. Doda Vilhena

    me livrei do curso de padrinho graças ao meu pai, que subornou o padre líder da paróquia com uma camisa oficial do Paysandu. “Nah, avisa o seu menino que ele não precisa fazer o curso, no dia do batizado aqui eu vou guiando…ele fez primeira comunhão ao menos, né?”

    Resposta
  2. Manoel Leonam

    Curso de padrinho? tem diploma? agora você está livre para sair por ai apadrinhando quem te der na telha? eu não fui criado dentro da igreja, não sabia dessa de curso de padrinho. e o que afinal se aprende nesse curso? qual a definição correta de padrinho segundo o curso? deus é uma parada malandra mesmo.

    Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s