É perigoso viver no Catete

Era começo de noite do dia das mães, as ruas ainda estavam cheias. Caminhando na Rua do Catete em direção ao Largo do Machado ouço pipocos pouco secos e abafados demais para serem tiro. Malandro velho de três décadas de Vila Isabel, não achei aquele barulho parecido com a antiga trilha sonora do Morro dos Macacos (hoje ocupado por uma UPP, até quando não se sabe). Em segundos a dúvida foi dissipada. Um grupo de crianças com suas mães corriam na minha direção. Um carro, cujo modelo não consegui identificar (não sei identificar modelos de carros), conseguia avançar lentamente e ainda assim cantar pneu. Parecia respeitar o fluxo do trânsito, ou evitar acrescentar ao crime cometido a perda de pontos na carteira. Me escondi atrás de uma parede, mas ainda assim consegui ver o carro da PM passando ao meu lado com um policial com a metade do corpo para fora apontando um fuzil. Daquelas típicas cenas que duram eternos segundos.  

Entre voltar ou não para casa decido seguir em frente. O Catete ainda reservava mais perigos. Num picadeiro armado no Largo do Machado o conjunto de choro tocava “Carinhoso”, do Pixinguinha. Em seguida começava a apresentação de um grupo de palhaços da Argentina. Chamava-se Pato Mojado. Uma das palhaças me chamou a atenção. Alta, magra, com um vestido azul e uma calçola da vovó por baixo. Cabelo curto preso, nariz vermelho e pouca maquiagem. Era escandalosa e, por vezes, sem graça. Era a que se dava mal do grupo para outro prevalecer: o que chamam de “escada”. Primeiro, me identifico. Em seguida, me apaixono. O espetáculo acaba. Queria ter aquelas flores que esguicham água para me declarar. Espero um tempo e vou atrás das cortinas. Ela estava lá, acabando de tirar a maquiagem, já sem a roupa do espetáculo. Não era a mesma coisa. O encanto se desfazia na medida em que ela voltava ao normal.

pato mojado

Me apaixonei pela tosca magia do circo à esquerda

Ainda disposto a viver novos perigos, rumei para a Praça São Salvador, aquele tipo de lugar para chamar de seu. Eis que surge uma figura um tanto quanto sinistra, acompanhada de pessoas mais normais. Uma loura enrolada em uma bandeira do Santa Cruz, que ao sentar na mureta derrubou meu copo vazio de açaí. Presumi que o time havia sido campeão estadual. Foi o que bastou para que eu exaltasse o tricolor pernambucano: “Santinha! Santinha”. Além da bandeira, a moça trajava a camisa cobra-coral, vermelha branca e preta, e uma saia preta. Os óculos de armação grossa amarela escura, o nariz de certa maneira avantajado e os cabelos levemente ondulados lhe davam um aspecto de personagem do Harry Potter misturada com uma entidade. Papo vai, papo vem, terminei a noite com uma informação preciosa. Flávio Caça-Rato, atacante do Santa Cruz, dono da camisa 7 e autor de um dos dois gols na final sobre o Sport, é apelidado de CR7! O Cristiano Ronaldo do Arruda!

Voltei pra casa pela sombra.

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Tom Zé e os revolucionários do feicebuque

Dos últimos quatro shows do Tom Zé no Circo Voador fui a três – o único que perdi foi justamente aquele em que a mulherada começou a presenteá-lo com calcinhas. No do ano passado, ele parecia sentir os peso dos seus incríveis 76 anos. Eu também sentia o peso daqueles meses em que madrugava às 4 e meia da matina para trabalhar. Quase dormi sentado. Por isso, achei que fosse demorar a assisti-lo novamente. Não fossem os “revolucionários do feicebuque”…

Tom Zé narrou um comercial da Coca-Cola. Foi o que bastou para ser acusado de vendido pela internet. Com pode o mais autêntico dos Tropicalistas se vender desse jeito??? Fico imaginando se os revolucionários do feicebuque vivessem na época em que os Mutantes fizeram um comercial da Shell. Tom Zé, que não é bobo, capitalizou em cima da gritaria e assim surgiu o “Tribunal do Feicebuque”, EP com quatro músicas ironizando o episódio.

Pois então foi anunciado Tom Zé de volta ao Circo. E com a abertura de nada mais, nada menos que Rogério Skylab! Tom Zé mordido e Skylab pela primeira vez na lona tornou-se um evento imperdível. Prontamente passei a convocar os revolucionários do feicebuque na distinta rede social: “Preparem as latinhas de Coca-Cola!”.

tomze

A última vez que havia assistido ao Skylab foi numa quarta-feira de cinzas de uns três carnavais passados, no Teatro Odisseia, também na Lapa, abrindo para o Marcelo Nova. Fui direto de um bloco de carnaval em Santa Teresa, com uma parada estratégica no Nova Capela. De repente estava eu, com uma galinha na cabeça, e uma amiga cheia de purpurina e serpentina, no meio de um monte de roqueiros de preto. Já fui um grande fã do Skylab. Só de shows foram mais de 10. Na ida a um deles comecei um namoro de forma quase trágica (história que fica prum possível post futuro…). Escrevi uma matéria de capa do Caderno B do finado Jornal do Brasil. Por conta de outra matéria sobre o Fluminense, no Globoesporte.com – ele é tricolor fanático e havia marcado um show no dia do primeiro jogo da final da Libertadores, em 2008 – ele foi convidado para assistir àquela fatídica final no camarote do Maracanã. E por conta de um erro meu de edição numa longa entrevista prum blog, fechei as portas para ele em uma casa de shows de Juiz de Fora.

Dias antes do show recebi uma missão: entregar ao Tom Zé o disco de uma banda chamada El Efecto, do irmão de outra ex-namorada. O carro-chefe do disco se chama “O encontro de Lampião com Eike Batista”, bela música de nove minutos gravada há uns dois anos que ganha mais força cada vez que o Eike fica menos rico. Tom Zé tem uma música chamada “O encontro de Raul Seixas com Lampião”. E parece que já havia elogiado os garotos.

A noite parecia mesmo especial para Skylab. A calça e a camiseta básica deram lugar a um blazer, cabelos soltos e óculos escuros. Show curto e enxurrada de seus hits escalafobéticos. Quem só o conhecia por “Matador de passarinho” teve um belo apanhado de seu pitoresco cancioneiro: “Câncer no cu”, “Fátima Bernardes experiência”, “Carrocinha de cachorro quente” e a sua bizarra performance com a cenoura. Além do cover do Jupter Maçã, “Eu e minha ex”, uma das maiores canções de amor da história. Deu para matar a saudade.

“Foi no Circo Voador, Voador, Voador, que eu achei o meu amor, meu amor, meu amor”. É  assim que começam os shows do Tom Zé no Circo. Deve ser um caso raro, talvez único, de artista que tenha uma música exclusiva prum lugar. Tom Zé deu uma pincelada no divertido “Tribunal do Feicebuque”, com referências até do Papa Francisco. Pensei em como entregaria o CD a ele, mas Imaginei que seria complicado lhe dar algo que não fosse uma calcinha durante o show. Dei uma volta e vi a senhora Tom Zé vendendo discos sentada numa mesa. Perguntei seu nome, que havia esquecido, disse para Dona Neuza que ela já havia me colocado para dentro de um show lotado no Oi Futuro e deixei o CD do El Efecto com ela, que soltou uma gargalhada quando li o título da música do Eike. Missão cumprida, voltei para a frente do palco. Foi quando um revolucionário do feicebuque resolveu agir…

O copo de cerveja passou sobre a minha cabeça e explodiu na caixa de som entre o guitarrista e Jarbas, o Sivuca da banda. Alguns acordes depois, Tom Zé parou o show e protagonizou uma cena à la “Fabricando Tom Zé”, quando ele quase cai na porrada com um técnico de som na França.

Por alguns instantes foi difícil voltar a curtir o show. A vontade era de meter a porrada no filho da puta. Mas não demorou para Tom Zé voltar a cantar como se nada tivesse acontecido. Inclusive com suas performances com as calcinhas, que soariam como pornografia de um velho babão. Mas Tom Zé pode. Pode até gravar comercial da Coca-Cola.

Artes plásticas no Rio, lixo extraordinário

No último sábado, dia 5, decidi dar um tempo nos já manjados sambinhas do Centro da cidade e resolvi dar um confere na festa de rua da galeria Gentil Carioca, colado à Praça Tiradentes, para o lançamento de sua nova coleção de artistas. Fiquei aguardando sair alguma coisa na coluna Gente Boa, do Globo, entusiasta da carioquice matreira. Passada quase uma semana, nada (isso é que dá o Joaquim Ferreira dos Santos ficar de férias!) Pra não deixar passar em branco, resolvi reativar este espaço, no mesmo espírito da renomada publicação.

* No melhor estilo humor carioca, um sujeito com uma argola pendurada na barba passava um aspirador no asfalto e lamentava: “trabalhava na casa do Maradona. Fui limpar um pó e acabei despedido”.

* Na entrada da Gentil Carioca, um vídeo mostrava exaustivamente um travesti ordenando os visitantes: “Entre! ENTRE!!!! ENTREEEE!!!”. “Só assim mesmo”, falou baixinho um artista que teve suas obras preteridas.

* O ápice da noite foi quando um caminhão de lixo passou na hora em que tocava o funk “Agora sou solteira ninguém vai me segurar” e o gari, pendurado na parte de trás, dançava sensualmente. A galera urrou com aquela cena surpreendente e tipicamente carioca.

"Vieram recolher as peças?", perguntou aos garis um artista que não foi selecionado para a exposição

* Ali próximo, no Centro de Arte Hélio Oiticica, um sujeito batucava uma bateria ligada por fios a um laptop diante de olhares estupefatos. Mas dentre as obras, a melhor instalação era a do ar-condicionado no talo, que aplacava o calor super carioca.

* Um pouco adiante, no Largo das Artes, a galera retardatária se contentava com guaraná zero, já que a cerveja não deu nem para o começo. Garçons regulavam o biscoito Globo – havia caixas do símbolo do carioquismo praiano. Ali em frente, no Largo de São Francisco, rolava distribuição de comida para os moradores de rua. Um artista sugeriu chamá-los para protagonizar uma performance, mas logo desistiu quando ouviu do colega: “Quer dar uma de Vik Muniz, é? Chega!”.

"Obra de arte" na encruzilhada. A caninha tomba, vazia. Até o final da festa o frango congelado ainda estava lá

Não basta marcar presença, é preciso fazer cara de conteúdo

Isso não é um cachimbo, é uma obra de arte

Obra instigante localizada estrategicamente do lado dos banheiros

Quero essa camisa! (by @maryfe)

"Mantenha a cidade limpa. Mate os funkeiros" Grande obra expressionista no banheiro do pé-sujo em frente à galeria

Scooby Doo e Seu Peru mandam um abraço e um feliz Natal para @chicobarney

Chico Barney provou com maestria que é merecidamente o Amaury Jr das novas mídias socias. Agora são os artistas que o reverenciam. Pois bem. Estava eu entrevistando o Orlando Drummond, ouvindo histórias hilárias e impublicáveis, quando comentei com ele sobre a minha amizade com o Barney de Floripa. Seu Peru, do alto de seus 91 anos, subitamente encarnou o Scooby Doo e achou que eu me referia ao Barney dos Flinstones. Daí, pediu para que eu gravasse uma saudação em vídeo para seu grande parceiro de Hanna Barbera. Mesmo não sendo exatamente para o manezinho de Floripa, trata-se de mais uma manifestação do movimento que não pode morrer: “dê um alô para Chico Barney”.

Vela na naite bombada: Barrados no Baile, Bar da Rampa, Soul de Santa…

Barrados no Baile

Medo, muito medo... (foto roubada do http://festa90.blogspot.com/)

Depois de devidamente sugado até não poder mais, os anos 80 vão dando lugar aos 90 na naite bombada carioca. A festa Barrados no Baile aposta firme no pop e nas tosqueiras daquela década, tipo Macarena. Mal comparando com a Ploc dos primórdios, que era até interessante, a BB arrisca muito pouco. O ponto alto é o funk. O rock fica só pro final, super clichê: Smeel like teen spirit, Sweet child o´mine… E na boa: deixar Molejo de fora é uma falha imperdoável. Mas pra galera soft playboy, público da festa no Cinematheque, serve bastante. Ao menos não esbarrei com ninguém fantasiado de Power Ranger ou de Banana de Pijama. Um dos DJ´s é repórter do programa Fuzuê, que cobre de forma um tanto quanto eclética a naite bombada carioca. Cerveja cara.

Vinil é arte

Encaro esse culto ao vinil como algo para pessoas excêntricas e metidas a sofisticadas, como o Ed Motta. Mas a galera da Vinil é arte, que vem rolando na Casa de Jorge, na Lapa, demonstra uma paixão aparentemente autêntica pela bolacha. Até porque tem que gostar muito pra, com pouca luz, acertar a agulha na faixa certa. Festa que toca Puteiro em João Pessoa, dos Raimundos, pra mim tem moral. Assim como uma do Mundo Livre que eu não nunca tinha ouvido numa pista, A bola do jogo. A frequência é daquela galeria descolada, que ainda deve ter vitrola em casa. Cerveja barata, mas só tem Itaipava.

Soul de Santa

Não me ligo muito nesse papo de “festa com gente bonita”, mas nesse quesito a Soul de Santa peca – pelo menos na vez em que eu fui. Só um exemplo: na hora em que Elizeth Cardoso cantava “tem gente que já está com o pé na cova”, dei de cara com uma mulher que representava bem esse trecho de Eu bebo sim. A sede da SS é um casarão interessante, aparentemente habitado quando não há festas. Foi curioso notar no segundo andar a porta de um quarto encostada e um moleque lá dentro, no seu quarto, enquanto a festa rolava solta. Não dá para dizer que o clima é despojado. Tanto que um cara, de calça de moleton do Flamengo, sem camisa e de chinelo pegou uma das poucas mulheres interessantes. A SS é realmente um tanto quanto louca.

Estrela da Lapa

Na semana santa recebi uma galera do Recife ávida por um samba na Lapa. Com o Democráticos fechado, as filas no Rio Scenarium e no Carioca da Gema, o Estrela da Lapa acabou salvando a situação. Lá, o Galocantô mandava o seu já manjado, porém competente e honesto samba. O público do lugar é uma espécie de happy hour de dia de semana (temo que isso não explique direito). Não há casais dançando, e os que dançam, dançam mal (como se eu fosse o rei da malemolência). Mas o melhor da noite foi o DJ Aílton Áreas. Não me lembro de ter ouvido tantos ritmos diferentes em uma noite só. O cara não tem vergonha de enfileirar todos os hits do Black Eye Peas, manda os pancadões do funk e no final da noite alopra com House of pain (Jump around) e Beatsie Boys (No sleep till Broklin). Fui embora quando começou o set grunge. DJ Aílton Areas é garantia de diversão.

Bar da Rampa


Se você souber de alguma festinha ou de um samba no Bar da Rampa do Clube Guabanara, não deixe de ir. Se o som, a galera ou qualquer outra coisa não lhe agradar, o visual da Enseada de Botafogo garante a presença. Vale a pena ficar até o amanhecer, sentar no deck e ver o Pão de Açúcar surgindo na sua cara. A entrada geralmente é baratinha, 10 a 15 reais, e a cerveja é de garrafa. Peguei a parte final de uma festa com uma galera descolada, aquela super antenada com as novidades e ligada nos clássicos, manjou? No som, Feira de Acari, do MC Batata, e Mutantes. Se ainda não bombou, tem tudo pra bombar.

Discoteca Básica

O flyer da festa era bem atraente. Capas de discos clássicos, como Nevermind e Cabeça Dinossauro. E em um lugar que abriga várias festas bacanas, a Casa de Jorge, na Lapa. O DJ manda até um feijão com arroz interessante, Gorillaz, Clash. Tudo caminhava razoavelmente bem até o show de uma banda inspirada no Joy Division. O vocalista falava umas coisas esquisitas, daí vinha um som deprê, bem semelhante aos fãs do grupo. Seria melhor se a banda seguisse Ian Curtis e se matasse no final do show. Começo vacilante pra festa, cujo nome foi muito bem inspirado na coluna da finada revista Bizz. Que os produtores escolham uma atração melhor da próxima vez (ou nem tenha show) pra festa não virar passado.

E…

Casa da Matriz sofrendo com a falta de luz. Que fase! Furnas tá ali do lado. Por que não fazem um gato?

Ardida virou festa grande e já não cabe na Casa Rosa. Tal como a Maracangalha, que no dia 20 ocupa o Circo Voador com o Exalta Rei, bloco que anuncia horário, mas sai em outro. É aniversário do Roberto Carlos. Já pensou no clima de comoção se a Lady Laura capota?

Parabéns à molecada de 20 anos com suas festas de nomes fofos – Chocolate Party, Ice Cream – e filas gigantes. Graças a vocês, que colocaram a mão na massa, a noite do Rio foi invadida com estilo pela pirralhada. Se eu tivesse 10 anos a menos também estaria nessa.

Chuva na TV Globo: de Dercy Gonçalves à Fátima Bernardes

Dercy, no tempo em que levantou a bola da Globo

Nesta semana em que o Rio ficou debaixo d’água a mídia comparou a calamidade atual com outras do passado. Esta teria sido a pior enchente em 40 anos. A referência era o temporal do verão de 1966, que teria sido o pior até então. Naquela época, a TV Globo era uma novata entre as TV´s Tupi, Rio e Excelsior. E foi graças àquela calamidade que começou angariar audiência.

“Era sensacionalismo, mas a audiência batia lá em cima. A emissora estava se lançando, precisava daquilo para decolar”

Para ganhar o público a Globo apostou firme nas atrações popularescas, como Chacrinha, Dercy Gonçalves e Jacinto Figueira Júnior, o Homem do Sapato Branco. Dercy chegou à emissora de Roberto Marinho pelas mãos da dupla Boni & Walter Clark, que conheceu na TV Rio. “Dercy de Verdade” ia ao ar nas noites de domingo com esquetes, paródias de novelas, música e jornalismo. Um dos quadros de maior sucesso era o “Consultório sentimental”, que atendia pedidos de cadeiras de roda, óculos e bengalas. Assistencialismo que atraía muita gente para a porta da emissora.

“Naquela época a Globo era povo, precisava da prostituta que eu era da minha arte para eles aprenderem”

Com a enchente de 66, Dercy comandou uma bem sucedida campanha de doação de mantimentos. Ela ficava da sacada da emissora, no Jardim Botânico, dando informações sobre o bairro, um dos mais atingidos pelo temporal. A audiência aumentava na medida em que o nível da água baixava. O sucesso foi tão grande que ela ganhou outro programa, às quintas-feiras, “Dercy Espetacular”.

“Ofereci o que queriam: tragédia e humor, gente bonita e gente feia, o bom e o ruim, esplendor e miséria. Dercy de verdade era a cara do Brasil”

No começo da década de 70, já com audiência, a emissora promoveu o padrão Globo de qualidade e demitiu Dercy, Chacrinha e Raul Longras, entre outros apresentadores campeões entre o populacho. Os diretores alegavam que em Brasília havia uma pilha de processos contra a apresentadora. Era bravata e Dercy processou a Globo.

Ontem, quinta-feira, dia 8 de abril, semana em que o Rio sofreu com uma nova tragédia natural, lá estava Fátima Bernardes, saída de trás da bancada do Jornal Nacional, ao redor do morro da Bumba, em Niterói. “Perdeu totalmente o timing do jornalismo de rua, constrangimento puro”, como  vaticinou o jovem @mitzudiz. Mas tudo bem, Fátima. A Globo não depende de você como um dia dependeu da Dercy.

Nas horas vagas Vela pesquisa o grotesco da cultura brasileira

O dia em que um cara vestido com a camisa do Flu me assaltou

Clichê dos clichês

Para ficar mais curto e charmoso, o título desse texto poderia se chamar “O dia que eu fui assaltado por um tricolor”. Mas não. Como disse um amigo meu, flamenguista, o cara deveria ser um rubro-negro que assaltou um tricolor, o matou e tomou a camisa dele.

Saía do samba na Pedra do Sal, no pé do Morro da Conceição. Era quase 1 da manhã, de segunda para terça-feira. Resolvi pegar uma carona rápida num táxi com um amigo que ia para Tijuca. Fiquei na esquina da Presidente Vargas com Rio Branco e andei até o ponto mais perto, na PV. Só havia mendigos dormindo ao redor do ponto, pouco iluminado. Passou um buzão que não me servia. Passou um táxi, que eu dispensei. Algo que havia acontecido meses antes ali me deixava com uma falsa segurança.

Meses antes…

Fui ao teatro no CCBB com a ex-namorada num domingo à noite. Nos encontramos no metrô da Uruguaiana e fomos caminhando sob as marquises da Presidente Vargas. Atravessamos uma horda de mendigos, a maioria já deitados ou encostados nas paredes e nos portões cerrados dos prédios. O máximo que um deles fez foi pedir um trocado. A coragem e a inconsequência me dominavam. Atravessamos a Rio Branco e ali, na lateral da igreja da Candelária, a mesma da chacina, uns três pivetões, envoltos a cobertores, levantaram e nos cercaram. Um deles puxou a bolsa dela, que estava comigo, mas eu não larguei.

Seguimos em frente achando que o pior já havia passado. Porém, poucos passos depois, no mesmo quarteirão, um cara de bermuda, camisa e tênis, que de início não apresentava ameaça, se aproximou, tirou uma faca de uns 30 cm debaixo da camisa e exigiu a bolsa. Ainda acometido da coragem e inconsequência, empurrei a ex e gritei “corre!”. Diante do marginal, tentei driblá-lo tal qual um Neymar ou um Wellington Silva. Não sei se foi porque eu apresentei resistência, mas o sujeito desistiu. Segui em frente, reencontrei minha partner e ainda cruzamos com um casal gringo. Tentamos alertá-los do perigo, mas eles seguiram pelo mesmo caminho que viemos.

Acham que o perigo havia passado? Não. A peça em questão era a da Clarice Lispector. Uma bomba que até a ex, uma estudiosa da autora, detestou.

Sensibilizada com o perigo que enfrentei para prestigiá-la, Lispector faz o sinal da paz

De volta ao ponto de ônibus…

Percebi que um sujeito se aproximava. Mas quem iria me assaltar depois do que tinha acontecido? Me sentia imune, tomado por uma segurança inconsequente. Não era um, mas dois, vindo de direções diferentes. Um deles, usando uma camisa falsificada do Fluminense, foi logo pegando a minha camisa, na altura da barriga, e me apontando uma faca, menor do que a que eu havia enfrentado meses antes. Mas eu estava imobilizado. Gritavam pela carteira e pelo celular. “Porra, eu sou tricolor!!! Tricolor assalta tricolor? Que vacilo!!!”, apelei pateticamente. O vacilo era meu, de estar dando aquele mole, implorando para ser assaltado. O segundo mexeu nos meus bolsos. Comecei a gritar, agora como se eu estivesse dirigindo o meu próprio assalto. “Tira só o dinheiro, deixa os documentos!!!”. “Deixa o chip do celular!!!”. A dupla foi embora com 20 reais e meu celular, com o chip que um deles tentou tirar com a boca, mas não conseguiu. Um sujeito, que se identificou como segurança do tribunal chegou depois. Uma moça ainda me ofereceu dinheiro para a passagem. Recusei e agradeci. Tinha Rio Card. Caminhei tenso, até a Rio Branco, sem sinal de polícia, onde peguei um ônibus.

Ah, sim: na véspera o Fluminense havia perdido para o Flamengo por 5 a 3…

A volta à Pedra do Sal pós assalto

Veio o carnaval e na volta de Recife ainda não tinha ido à Pedra do Sal. Até a segunda-feira da última semana. Acabou servindo para me despedir de uma pessoa muito especial, que foi morar fora do Brasil. Na hora de ir embora, fui até o primeiro ponto de ônibus da Rio Branco, logo depois da Praça Mauá, sempre movimentada. Fiquei atento ao redor. Enquanto esperava pensava nos perigos e nas despedidas da vida… O buzão chegou. Passei pelo ponto onde fui assaltado. Além de bastante iluminado, havia carros da PM e do Exército, além de um ônibus aparentemente batido. Depois soube que se tratava de um acidente de trânsito de um motoqueiro militar que fazia a escolta do Lula. Mais seguro, impossível.

Na véspera o Fluminense havia vencido o Botafogo por 2 a 1, de virada.